_Bom, eu vou fazer as malas. Disse Paula
_Eu vou dar uma volta por aí!
_ Ah, como eu faço prá deixar a minha chave do apartamento?
_ Pode deixar ela dentro da nossa caixa postal. Disse Júlio saindo sem despedir-se . Ele estava atônito e ainda desorientado depois da conversa daquela noite. Ele e Paula estavam casados há 12 anos e tinham um bom relacionamento, ao menos assim pensava ele, a última coisa que esperava ouvir da boca dela , foi justamente o que ouvira. E o lamento de Jó foi o seu lamento, “o que eu temia me veio, o que eu receava me aconteceu”
Uma chuva fina batia contra o seu rosto, sentia o peito apertado, era como se alguém tivesse lhe dado um soco no estômago. Uma multidão de pensamentos afluía na sua mente. Por que? Em que ele errara? Como Paula pode fazer aquilo com ele, logo ela que devia tanto a ele. Ela era apenas uma menina pobre, filha da faxineira da sua casa quando se conheceram. Pensava no olhar dela, como era lindo aquele olhar, bastava um olhar e ele se desmanchava diante dela, sempre fora assim.
Paula logo percebeu o olhar comprido do filho dos patrões de sua mãe e não hesitou em jogar todo seu charme para cima dele. Júlio estava se formando em medicina, era um belo rapaz e muito assediado pelas meninas, era um bom partido para qualquer mulher e muito mais para ela uma menina pobre e com poucas chances de ascensão social.
A chuva cessara quando Júlio entrou no bar. Uma música alta e distorcida tocava em um cd player no fundo do bar. Talvez o melhor fosse encher a cara, era a única idéia que lhe ocorrera naquele momento. Desligou seu celular e seu pager. Os pensamentos continuavam fluindo. Porque não havia percebido antes? havia pistas, sim havia pistas, na verdade, pensando bem, havia todas os sinais que algo não vinha bem entre eles. Não conseguia lembrar , quando foi a última transa realmente boa entre eles, geralmente, ficavam no primeiro orgasmo e nada mais, o que duravam suas relações 15, 20 minutos, quem poderia saber. A quanto tempo ela não tomava a iniciativa, não conseguia lembrar a ultima vez que Paula o procurara.. A dor no peito não cessava. O primeiro uísque tomou num gole só.
As pernas de Paula, sim como eram lindas as pernas da filha da empregada, ainda lembrava, quando passou as mãos nas pernas dela a primeira vez. A pretexto de dar uma aula de reforço de biologia, ali estavam os dois sentados lado a lado na escrivaninha do seu quarto. Ela com uma saia curta, pernas bronzeadas pelo sol, e ele colocando a sua mão sobre a perna dela. No início timidamente, mas logo procurando sentir a vagina dela, tão diferente das vaginas das suas pacientes. Tocara de leve sobre a calcinha dela, ainda lembrava de como estava quente e intumescida. E a menina ali fechando as pernas, e retirando a sua mão, que insistia em roçar na calcinha de algodão, como se naquele momento, nada mais importasse do que, sentir o calor da sua intimidade.
A música continuava a tocar, alta e distorcida. Afinal quem era o novo amor dela, ele conhecia todos os seus colegas de trabalho, quem era esse tal de Jeferson . Sentia-se pequeno, indefeso, fraco, sem sentidos, talvez fosse assim que se sentisse o feto dentro da barriga de suas clientes.
O casamento dos dois veio rápido, estavam juntos apenas 8 meses quando resolveram casar. Os pais dele nada disseram, mas não deixaram de demonstrar a frustração que sentiram por ele ter escolhida alguém tão despropositadamente como ele escolhera. A filha da faxineira, agora era esposa de um médico. Ele não poupava esforços em agradá-la, roupas, jóias, perfumes, flores, restaurantes, praticamente tudo que um homem poderia fazer por uma mulher ele fez por ela, era um discípulo de Ovídio. Sua vida se resumia em duas palavras trabalho e Paula. Amava-a de todas as formas possíveis, e não hesitava em demonstrar o quanto a queria. E agora ela simplesmente dizia-se apaixonada por outra pessoa, que gostava muito dele, que não queria traí-lo e por esta razão resolvera ir embora. O único consolo que restava a ele , era o fato de não terem filhos, o que aumentaria o trauma da separação. Quase treze anos de sua vida estavam, indo por água abaixo. A dor no peito aumentava, sentia falta de ar. Já estava na quarta ou quinta dose de uísque, talvez fosse a sexta. Quanto tempo ela estava dando para o outro, coitado, certamente, um dia seria corno como ele, começou a sorrir com este pensamento que lhe viera a mente.
Notou que havia uma mulher sentada no fundo do bar. Talvez fosse só impressão sua , mas parecia que ela estava olhando para ele. Não era de se duvidar, pensou ele, havia uns poucos pobres diabos no bar, e ele destoava nitidamente de todos eles. Ela não queria ter filhos. Sim, ela não queria ter filhos, nunca soubera bem o porquê, ela vivia postergando este momento o que tantas mulheres desejam. Quantas mulheres ele havia tratado, que dariam um pedaço da sua carne para terem um filho. E Paula não, sempre achando muito cedo, sempre dando uma desculpa. _ Vamos esperar um pouco mais amor. Essa era a frase preferida dela. E o bobalhão ali esperando pela boa vontade dela. Quem sabe o Jeferson não faria o que ele não foi capaz de fazer. Quem? Quem era ele? Saíra tão apressado depois da conversa daquela noite, que praticamente nada tinha dito a ela. Talvez devesse voltar ao apartamento e chamá-la de vagabunda, puta, vadia, sem vergonha, mal agradecida como ela tinha coragem de traí-lo depois de tudo que ele tinha feito. Esta era sua vontade naquele momento, mas provavelmente ela já tivesse ido embora, e afinal o que ele ganharia com isso. Na verdade quem sabe ele não devesse até comemorar este acontecimento, estava livre de novo, sim livre para as enfermeiras, para as suas colegas que estavam sempre se insinuando para ele. Quem sabe não comeria até a secretária do seu consultório, uma moça de 22 anos e muito bonita, com certeza ela não diria não, se ele a convidasse para sair. Pediu mais uma dose para o garçom.
A moça sentada no fundo do bar continuava olhando para ele.A dor no peito continuava assim como a falta de ar. Forçou a visão, não conseguia fazer nenhum juízo da moça do fundo bar. Aliás fazer juízo da situação não era seu forte, se fosse não tinha sido surpreendido como fora. Ás vezes parecia que a moça era Paula, sim Paula o seguira, mas porque? A moça levantou-se, e veio em sua direção, pode notar que era de baixa estatura, e com cabelos curtos e negros.
_ Tem fogo?
_ Não, eu não fumo. O barman estendeu um palito de fósforo aceso para ela.
_ É impressão minha, ou você estava me cuidando?
_ Eu?
_Sim, você!
Não conseguia raciocinar direito, estava muito bêbado para falar alguma coisa lógica.
_ Faz alguma diferença se eu estava ou não te olhando, ou você cobra alguma taxa para te olhar?
_Calma, eu só estou perguntando, não precisa...
_ Não precisa?
_ Não precisa ser mal educado.
_ Desculpa!
_ Ana Flávia. E você é o?
_ Julio. Falou estendendo a mão para Ana, que a apertou e deu dois beijos na sua face .
A boca quente de Ana lhe fez lembrar as pernas de Paula, a ingrata. Possivelmente ela estivesse trepando com seu amante naquela exata hora , em que ele enchia a cara.
_ Me paga uma bebida?
_Claro, peça.
Ana Flávia pediu um martini com gelo. Deixou as suas pernas encostadas nas de Júlio. Pernas que falavam vamos lá garotão. Julio muito bêbado não conseguia focar bem a fisionomia de Ana. A idéia de transar com outra mulher estava lhe excitando. Colocou as mãos sobre a perna de Ana. Paula fechava as pernas, Ana as abria. Colocou as mãos quase na virilha de Ana, que não fez a mínima menção para conter as mãos dele. Júlio pode sentir as rendas da calcinha de Ana Flávia. Ela parecia estar gostando da situação. Ele já bastante bêbado a convidou para irem para seu apartamento, convite aceito por ela prontamente. Pagou a conta, deixou o troco com o barman. Saiu do bar de mãos dadas com Ana.
A chuva cessara. O pensamento que talvez Paula não tivesse ido embora lhe ocorreu, sentiu um nó na garganta. E se Paula ainda estivesse no apartamento. Sentia-se tonto. Talvez ele tivesse entendido mal, quem sabe Paula não estava testando-o. Por um instante pensou que não era uma boa idéia levar uma mulher para o seu apartamento. Ana o enlaçou com seus braços. Se as luzes do apartamento estivessem acesas, não iria entrar. Chegaram na frente do prédio as luzes do apartamento estavam apagadas. Ele sentiu-se deprimido, Paula tinha mesmo ido embora. Júlio só se mantinha em pé porque estava apoiado em Ana Flávia. Teve alguma dificuldade com as chaves, mas enfim entraram no apartamento. Viu um papel sobre a mesa, ao chegar perto notou que era uma carta de Paula, apressou-se em guardá-la em seu bolso, iria ler mais tarde.
Ana Flávia não hesitou em partir para cima dele, não sem antes elogiar o belo apartamento de Júlio. Ele sentiu a boca quente e úmida de Ana , pensava em Paula. A mão dela procurava o seu pênis flácido pela bebedeira. A conduziu para o quarto. Pediu licença para ir ao banheiro, à viu procurando o controle do cd player que tinha no quarto. Lavou o rosto, a água fria o despertou, não tinha sido uma boa idéia ter trazido a moça, estava muito bêbado para transar, e não parava de pensar em Paula. Voltou para o quarto. A moça o empurrou para a cama, e começou a despi-lo, ele ainda não estava em condição para o sexo. Ela dona da situação, começou a fazer sexo oral, o pênis dele reagiu ao estímulo. Enfim com algum esforço e talento dela transaram. Júlio sentiu o cheiro da fumaça do cigarro de Ana, que fumava no parapeito da janela, foi a última visão de Júlio naquela noite.
Acordou um pouco zonzo e com uma leve dor de cabeça. Levantou-se com um sobressalto da cama, onde estava a moça?. Vasculhou o apartamento e não a encontrou , checou a porta de entrada estava apenas encostada. Ela tinha ido embora. A carta de Paula , onde estava, pegou a calça que usara na noite anterior, estava no bolso de trás. Ficou decepcionado com o que lera, apenas desculpas vazias por parte da sua agora ex-esposa, coisas do tipo gosto muito de você, não queria que isto tivesse acontecido, eu não te mereço, você merece alguém melhor do que eu. Coisas do tipo que se diz quando se quer dispensar alguém por quem se tem algum apreço. Teria sido muito melhor se ela não tivesse escrito nada. Já eram nove horas da manhã, deveria estar no consultório naquele mesmo horário, ligou imediatamente para sua secretária, avisando que tinha surgido uma emergência de última hora e não poderia atender ninguém aquela manhã. Ainda sentia o peito apertado. Ligou para Paula:
_ Oi. Falou Paula no outro lado da linha
_ Oi , desculpa por eu ter saído sem ao menos me despedir ontem à noite.
_ Ah, eu entendo, você não precisa pedir desculpa, eu..
_ Preciso sim, não foi legal o que eu fiz.
_ Qué isso, se tem alguém que não foi legal , fui eu.
_ Olha Paula eu queria muito falar com você.
_ Sobre?
_ Ah falar, ontem foi tudo tão rápido.
_ É eu sei, mas não sei se nos encontrarmos é a melhor solução.
_ Vamos almoçar juntos hoje. Prometo que depois não te incomodo mais.
_ Não é incômodo, eu sinceramente não me sinto preparada, prá falar a verdade me sinto até envergonhada com a situação.
_ Hoje ao meio dia eu te pego tá.
_ Tá, eu te espero na frente do prédio. Tchau
_ Tchau, beijo!
Tomou um banho demorado, iria levá-la no seu restaurante preferido, mas antes iria passar no centro para lhe comprar um buquê de flores, não iria desistir assim tão facilmente de Paula.
Autor: Maurel Giacumuzzi
Nenhum comentário:
Postar um comentário