segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Memórias de um cão (conto)

Jogado as traças, sem eira nem beira. Antes quase um ser humano, agora sequer pode ser chamado de cão; sentia-se o animal mais feliz do mundo e carinho recebia tanto que ás vezes até refugava. Diferente dos dias atuais, onde vaga a cidade em busca de alguém, que apenas olhe para si; seu pêlo não é mais o mesmo, tratado e perfumado pelas delicadas mãos de um menino. Melhor, os poucos que lhe restaram, pois a sarna tomou-lhe conta do couro e a parvovirose aos pouco vai terminando com sua agustiada vida; das orelhas em pé nem lembra mais. Têm-nas agora, bichadas, caídas e murchas; antes proprietário de uma pequena mansão, só sua, no fim do jardim junto à grama, toda decorada e muito aconchegante. Hoje dorme onde puder ou der na telha; comia do bom e melhor. Ração! Ah e de carne, pois frango fazia-lhe mal ao intestino. Atualmente contenta-se com qualquer osso sem carne e come até galinha, com pena.
Bons tempos eram aqueles em que jogava futebol, buscava bolinhas, pedaços de pau e até fingia-se de morto para agradar as pessoas. Sentia-se útil.
- Tobi, Tobiii...
Os gritos ainda pode escutar, vasculhando, sem querer os profundos recantos da memória.
Animal do mundo atende pela alcunha “cachorro de rua”.
Velho, mas não o suficiente para entender o que houve com o pequeno Tito. Imagens às vezes vêm-lhe a mente: Um caminhão atulhado de móveis, uma voz masculina que grita:
 - Venha Tito, não podemos levá-lo. Lembra que já havíamos conversado a respeito disso?
O menino chora agarrado ao seu corpo, e as lágrimas molham seu pêlo ainda jovem. Com muito custo, o homem leva o menino aos prantos; O caminhão arranca e ele sai atrás, estrada a fora, como um louco, latindo, implorando para que o levem junto, seja para onde for, não interessa, quer ir também. O veículo acelera mais, para seu desespero sente que já não é mais possível alcançá-lo. Senta, fica a observar aquela coisa enorme, que leva para longe sua família, sua felicidade. Fita o veículo até perder-se de vista. Cansado, a língua de fora, pára em meio à faixa. Os carros buzinam, ordenam que saia do caminho.  Reconhece que estes não são seus donos, mas dá meia volta com o rabo entre as pernas e o focinho cravado no chão quente. È cão, mas entende o que está acontecendo, não o porquê, mas sabe o que está havendo: Está sendo deixado, abandonado, sozinho. Vê isso. Sente isso.
Tem dúvidas se essas coisas um dia realmente aconteceram. Se sim, poderia ter sido ontem, ou há dez anos, não lembrava ou não queria. O certo é que estes pensamentos apenas vinham a sua cabeça anciã e ele precisa esquecer.
Deitado sob a marquise, tenta achar a o sono eterno que teima em tardar e o tempo estende-se por longas e impiedosas tardes de sol. Como esta, que despeja sobre ele toda sua fúria quente de verão. Sua língua pende enorme, como nunca antes, implorando um pouco de água que possa prolongar seu sofrimento. Um desconhecido, ou melhor, seu novo amigo, tão sujo quanto ele, aproxima-se, afaga-lhe a cabeça, e compartilha um pedaço de pão duro, ao que ele come com avidez, e devolve ao companheiro um olhar de gratidão sincero; de seus olhos escuros escorre esta, que talvez seja sua última lágrima, que não cai, fica suspensa como ele no dia em que perdeu seu lar e seu dono. Essa lágrima é sua apenas, e o que lhe pertence jamais deixará sair perto de si, mesmo que não deseje ter, que lhe seja incomoda, a lágrima pertence a ele, e não será jogada no vil e sujo chão de uma rua qualquer.






Autor: Luis Felipe Mendes

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