segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Dentes (miniconto)

Dialogo entre Deus e sua criatura:
- Estou pronto, Deus?
- Acho que sim. Deixe-me ver. Falta algo, não sei o que é... Ah, mostre-me os dentes.
- Dentes? O que são dentes?
- Ah meu filho... Algo muito importante. Você teria uma vida muito difícil na terra sem isto.





Autor: Luis Felipe Mendes

O tomate (conto)

Era uma vez um homem qualquer, parado numa passarela qualquer, olhando parte da imensidão da cidade.
            Entre edifícios e carros notou próximo o seu pé, um tomate possivelmente estragado, que jazia inerte junto à amurada, preso numa pedra, que o impedia de rolar até o embaixo.
            Valendo-se do instinto humano de curiosidade o sujeito resolveu dar uma ajudinha para o pobre vegetal. Fez assim tocando-o levemente com o bico do seu sapato.
            O fruto vermelho deslocou-se rampa abaixo, numa corrida macia e moderada, desviando-se com habilidade dos obstáculos a sua frente. Quando dava sinais de que desistiria, diante de uma pedra maior, ou pararia por si mesmo, culpa dos buracos que a podridão impunha-lhe, aí sim é que seguia. Parecia ter arroubos de felicidade a cada pedra vencida, saltitando em comemoração.
            O homem assistia a tudo desinteressadamente. Já eu, olho no sujeito, outro no tomate, acompanhava com absoluto espanto àquela cena. Tinha interesse no vegetal. Esquecendo-me do seu mal, ou bem feitor.
            Que fruto cheio de coragem era aquele. Quanta determinação diante desses obstáculos... Meus pensamentos foram interrompidos abruptamente quando perdi de vista o tomate e o homem se afastava. Via no fim da rampa uma pequena escada, onde o fruto poderia ter passado, ou estivesse ali mesmo, junto aos degraus. Agora afastado da minha visão.
            O correto a fazer, segundo o que eu sentia no momento, seria eu ir até lá e procurá-lo, levá-lo para casa, sanar suas feridas – se possível – e comunicá-lo quanto a minha admiração, mas o pudor freou meus anseios. Resolvi deixar a passar por louco que cata alimentos podres próximo a viadutos. Sendo assim, fiquei apenas no desejo. Fui embora, mas não sem antes prometer a mim mesmo que um dia voltaria ali.
            Parti refletindo o momento e como o encontraria daqui a algum tempo: Ainda estragado? E será que estava estragado mesmo da primeira vez ou tudo fora fruto da minha cabeça, só por ele ser um tomate de rua, desprezado?  Bom talvez não tivesse sido jogado fora, mas simplesmente arremessado de um caminha a um sacolejar. Estaria no mesmo lugar? Quem sabe fosse esmagado pelos tamancos enormes de uma senhora igualmente enorme. Poderia estar ainda na escada a minha espera. Se assim fosse eu o pegaria nas mãos e cumpriria meu juramento.
            O que até então não me ocorrera era a indagação e constatação mais obvia: por que esta admiração por este fruto podre?! Existem certas coisas que, conscientemente, escondemos de nós mesmos, talvez esta fosse à situação, porque somente esses dias atrás me ocorreu esta reflexão.
            Como bom pensador que sou peguei-me a analisar o caso novamente hoje. Decidi que é hora de esquecer o tomate. Deixe-o seguir seu curso, quem sabe num passado distante, ou até no presente ele ainda esteja a rolar rampa abaixo, dando viva a vida e sofrendo com as pedras e com um final incerto junto à descida, próximo as escadas.






Autor: Luis Felipe Mendes

Paixão (conto)


_Bom, eu vou fazer as malas. Disse Paula
_Eu vou dar uma volta por aí!
_ Ah, como eu faço prá deixar a minha chave do apartamento?
_ Pode deixar ela dentro da nossa caixa postal. Disse Júlio saindo sem despedir-se . Ele estava atônito e ainda desorientado depois da conversa daquela noite. Ele e Paula estavam casados há 12 anos e tinham um bom relacionamento, ao menos assim pensava ele, a última coisa que esperava ouvir da boca dela , foi justamente o que ouvira. E o  lamento de Jó foi o seu lamento, “o que eu temia me veio, o que eu receava me aconteceu”
            Uma chuva fina batia contra o seu rosto, sentia o peito apertado, era como se alguém tivesse lhe dado um soco no estômago. Uma multidão de pensamentos afluía na sua mente. Por que? Em que ele errara? Como Paula pode fazer aquilo com ele, logo ela que devia tanto a ele. Ela era apenas uma menina pobre, filha da faxineira da sua casa quando se conheceram. Pensava no olhar dela, como era lindo aquele olhar, bastava um olhar e ele se desmanchava diante dela, sempre fora assim.
            Paula logo percebeu o olhar comprido do filho dos patrões de sua mãe e não hesitou em jogar todo seu charme para cima dele. Júlio estava se formando em medicina, era um belo rapaz  e muito assediado pelas meninas, era um bom partido para qualquer mulher e muito mais para ela uma menina pobre e com poucas chances de ascensão social.
            A chuva cessara quando Júlio entrou no bar. Uma música alta e distorcida tocava em um cd player no fundo do bar. Talvez o melhor fosse encher a cara, era a única idéia que lhe ocorrera naquele momento. Desligou seu celular e seu pager. Os pensamentos continuavam fluindo. Porque não havia percebido antes? havia pistas, sim havia pistas, na verdade, pensando bem, havia todas os sinais que algo não vinha bem entre eles. Não conseguia lembrar , quando foi a última transa realmente boa entre eles, geralmente, ficavam no primeiro orgasmo e nada mais, o que duravam suas relações 15, 20 minutos, quem poderia saber. A quanto tempo ela não tomava a iniciativa, não conseguia lembrar a ultima vez que Paula o procurara.. A dor no peito não cessava. O primeiro uísque tomou num gole só.
            As pernas de Paula, sim  como eram lindas as pernas da filha da empregada, ainda lembrava, quando passou as mãos nas pernas dela a primeira vez. A pretexto de dar uma aula de reforço de biologia, ali estavam os dois sentados lado a lado na escrivaninha do seu quarto. Ela com uma saia curta, pernas bronzeadas pelo sol, e ele  colocando a sua mão sobre a perna dela. No início timidamente, mas logo procurando sentir a vagina dela, tão diferente das vaginas das suas pacientes. Tocara de leve sobre a calcinha dela, ainda lembrava de como estava quente e intumescida. E a menina ali fechando as pernas, e retirando a sua mão, que insistia em roçar na calcinha de algodão, como se naquele momento, nada mais importasse do que, sentir o calor da sua intimidade.
A música continuava a tocar, alta e distorcida. Afinal quem era o novo amor dela, ele conhecia  todos os seus colegas de trabalho, quem era esse tal de Jeferson . Sentia-se pequeno, indefeso, fraco, sem sentidos, talvez fosse assim que se sentisse o feto dentro da barriga de suas clientes.
O casamento dos dois veio rápido, estavam juntos apenas 8 meses quando resolveram casar. Os pais dele nada disseram, mas não deixaram de demonstrar a frustração que sentiram por ele ter escolhida alguém tão despropositadamente como ele escolhera. A filha da faxineira, agora era esposa de um médico. Ele não poupava esforços em agradá-la, roupas, jóias, perfumes, flores, restaurantes, praticamente tudo que um homem poderia fazer por uma mulher ele fez por ela, era um discípulo de Ovídio. Sua vida se resumia em duas palavras trabalho e Paula. Amava-a de todas as formas possíveis, e não hesitava em demonstrar o quanto a queria. E agora ela simplesmente dizia-se apaixonada por outra pessoa, que gostava muito dele, que não queria  traí-lo e por esta razão resolvera ir embora. O único consolo que restava a ele , era o fato de não terem filhos, o que aumentaria o trauma da separação. Quase treze anos de sua vida estavam, indo por água abaixo. A dor no peito aumentava, sentia falta de ar. Já estava na quarta ou quinta dose de uísque, talvez fosse a sexta. Quanto tempo ela estava dando para o outro, coitado, certamente, um dia seria corno como ele, começou a sorrir com este pensamento que lhe viera a mente.
            Notou que havia uma mulher sentada no fundo do bar. Talvez fosse só impressão sua , mas parecia que ela estava olhando para ele. Não era de se duvidar, pensou ele, havia uns poucos pobres diabos no bar, e ele destoava nitidamente de todos eles. Ela não queria ter filhos. Sim, ela não queria ter filhos, nunca soubera bem o porquê, ela vivia postergando este momento o que tantas mulheres desejam. Quantas mulheres ele havia tratado, que dariam um pedaço da sua carne para terem um filho. E Paula não, sempre achando muito cedo, sempre dando uma desculpa. _ Vamos esperar um pouco mais amor. Essa era a frase preferida dela. E o bobalhão ali esperando pela boa vontade dela. Quem sabe o Jeferson não faria o que ele não foi capaz de fazer. Quem? Quem era ele? Saíra tão apressado depois da conversa daquela noite, que praticamente nada tinha dito a ela. Talvez devesse voltar ao apartamento e chamá-la de vagabunda, puta, vadia, sem vergonha, mal agradecida como ela tinha coragem de traí-lo depois de tudo que ele tinha feito. Esta era sua vontade naquele momento, mas provavelmente ela já tivesse ido embora, e afinal o que ele ganharia com isso. Na verdade quem sabe ele não devesse até comemorar este acontecimento, estava livre de novo, sim livre para as enfermeiras, para as suas colegas que estavam sempre se insinuando para ele. Quem sabe não comeria até a secretária do seu consultório, uma moça de 22 anos e muito bonita, com certeza ela não diria não, se ele a convidasse para sair. Pediu mais uma dose para o garçom.
            A moça sentada no fundo do bar continuava olhando para ele.A dor no peito continuava assim como a falta de ar. Forçou a visão, não conseguia fazer nenhum juízo da moça do fundo bar. Aliás fazer juízo da situação não era seu forte, se fosse não tinha sido surpreendido como fora. Ás vezes parecia que a moça era Paula, sim Paula o seguira, mas porque? A moça levantou-se, e veio em sua direção, pode notar que era de baixa estatura, e com cabelos curtos e negros.
_ Tem fogo?
_ Não, eu não fumo. O barman estendeu um palito de fósforo aceso para ela.
_ É impressão minha, ou você estava me cuidando?
_ Eu?
_Sim, você!
Não conseguia raciocinar direito, estava muito bêbado para falar alguma coisa    lógica.
_ Faz alguma diferença se eu estava ou não te olhando, ou você cobra alguma taxa para te olhar?
_Calma, eu só estou perguntando, não precisa...
_ Não precisa?
_ Não precisa ser mal educado.
_ Desculpa!
_ Ana Flávia.  E você é o?
_ Julio. Falou estendendo a mão para Ana, que a apertou e deu dois beijos na sua face .
            A boca quente de Ana lhe fez lembrar as pernas de Paula, a ingrata. Possivelmente ela estivesse trepando com seu amante naquela exata hora , em que ele enchia a cara.
_ Me paga uma bebida?
_Claro, peça.
Ana Flávia pediu um martini com gelo. Deixou as suas pernas encostadas nas de Júlio. Pernas que falavam vamos lá garotão. Julio muito bêbado não conseguia focar bem a fisionomia de Ana. A idéia de transar com outra mulher estava lhe excitando. Colocou as mãos sobre a perna de Ana. Paula fechava as pernas, Ana as abria. Colocou as mãos quase na virilha de  Ana, que não fez a mínima menção para conter as mãos dele. Júlio pode sentir as rendas da calcinha de Ana Flávia. Ela parecia estar gostando da situação. Ele já bastante bêbado a convidou para irem para seu apartamento, convite aceito por ela prontamente. Pagou a conta, deixou o troco com o barman. Saiu do bar de mãos dadas com Ana.           
A chuva cessara. O pensamento que talvez Paula não tivesse ido embora lhe ocorreu, sentiu um nó na garganta. E se Paula ainda estivesse no apartamento. Sentia-se tonto. Talvez ele tivesse entendido mal, quem sabe Paula não estava testando-o. Por um instante pensou que não era uma boa idéia levar uma mulher para o seu apartamento. Ana o enlaçou com seus braços. Se as luzes do apartamento estivessem acesas, não iria entrar. Chegaram na frente do prédio as luzes do apartamento estavam apagadas. Ele sentiu-se deprimido, Paula tinha mesmo ido embora. Júlio só se mantinha em pé porque estava apoiado em Ana Flávia. Teve alguma dificuldade com as chaves, mas enfim entraram no apartamento.  Viu um papel sobre a mesa, ao chegar perto notou que era uma carta de Paula, apressou-se em guardá-la em seu bolso, iria ler mais tarde.
Ana Flávia não hesitou em partir para cima dele, não sem antes elogiar o belo apartamento de Júlio. Ele sentiu a boca quente e úmida de Ana , pensava em Paula. A mão dela procurava o seu pênis flácido pela bebedeira. A conduziu para o quarto. Pediu licença para ir ao banheiro, à viu procurando o controle do cd player que tinha no quarto. Lavou o rosto, a água fria o despertou, não tinha sido uma boa idéia ter trazido a moça, estava muito bêbado para transar, e não parava de pensar em Paula. Voltou para o quarto. A moça o empurrou para a cama, e começou a despi-lo, ele ainda não estava em condição para o sexo. Ela dona da situação, começou a fazer sexo oral, o pênis dele reagiu ao estímulo. Enfim com algum esforço e talento dela transaram. Júlio sentiu o cheiro da fumaça do cigarro de Ana, que fumava no parapeito da janela, foi a última visão de Júlio naquela noite.
Acordou um pouco zonzo e com uma leve dor de cabeça. Levantou-se com um sobressalto da cama, onde estava a moça?. Vasculhou o apartamento  e não a encontrou , checou a porta de entrada estava apenas encostada. Ela tinha ido embora. A carta de Paula , onde estava, pegou a calça que usara na noite anterior, estava no bolso de trás. Ficou decepcionado com o que lera, apenas desculpas vazias por parte da sua agora ex-esposa, coisas do tipo gosto muito de você, não queria que isto tivesse acontecido, eu não te mereço, você merece alguém melhor do que eu. Coisas do tipo que se diz quando se quer dispensar alguém por quem se tem algum apreço. Teria sido muito melhor se ela não tivesse escrito nada. Já eram nove horas da manhã, deveria estar no consultório naquele mesmo horário, ligou imediatamente para sua secretária, avisando que tinha surgido uma emergência de última hora e não poderia atender ninguém aquela manhã.  Ainda sentia o peito apertado. Ligou para Paula:
_ Oi. Falou Paula no outro lado da linha
_ Oi , desculpa por eu  ter saído sem ao menos me despedir ontem à noite.
_ Ah, eu entendo, você não precisa pedir desculpa, eu.. 
_ Preciso sim, não foi legal o que eu fiz.
_ Qué isso, se tem alguém que não foi legal , fui eu.
_ Olha Paula eu queria muito falar com você.
_ Sobre?
_ Ah falar, ontem foi tudo tão rápido.
_ É eu sei, mas não sei se nos encontrarmos é a melhor solução.
_ Vamos almoçar juntos hoje. Prometo que depois não te incomodo mais.
_ Não é incômodo, eu sinceramente não me sinto preparada, prá falar a verdade me sinto até envergonhada com a situação.
_ Hoje ao meio dia eu te pego tá.
_ Tá, eu te espero na frente do prédio. Tchau
_ Tchau, beijo!
              Tomou um banho demorado, iria levá-la no seu restaurante preferido, mas antes iria passar no centro para lhe comprar um buquê de flores, não iria desistir assim tão facilmente de Paula.





Autor: Maurel Giacumuzzi


Memórias de um cão (conto)

Jogado as traças, sem eira nem beira. Antes quase um ser humano, agora sequer pode ser chamado de cão; sentia-se o animal mais feliz do mundo e carinho recebia tanto que ás vezes até refugava. Diferente dos dias atuais, onde vaga a cidade em busca de alguém, que apenas olhe para si; seu pêlo não é mais o mesmo, tratado e perfumado pelas delicadas mãos de um menino. Melhor, os poucos que lhe restaram, pois a sarna tomou-lhe conta do couro e a parvovirose aos pouco vai terminando com sua agustiada vida; das orelhas em pé nem lembra mais. Têm-nas agora, bichadas, caídas e murchas; antes proprietário de uma pequena mansão, só sua, no fim do jardim junto à grama, toda decorada e muito aconchegante. Hoje dorme onde puder ou der na telha; comia do bom e melhor. Ração! Ah e de carne, pois frango fazia-lhe mal ao intestino. Atualmente contenta-se com qualquer osso sem carne e come até galinha, com pena.
Bons tempos eram aqueles em que jogava futebol, buscava bolinhas, pedaços de pau e até fingia-se de morto para agradar as pessoas. Sentia-se útil.
- Tobi, Tobiii...
Os gritos ainda pode escutar, vasculhando, sem querer os profundos recantos da memória.
Animal do mundo atende pela alcunha “cachorro de rua”.
Velho, mas não o suficiente para entender o que houve com o pequeno Tito. Imagens às vezes vêm-lhe a mente: Um caminhão atulhado de móveis, uma voz masculina que grita:
 - Venha Tito, não podemos levá-lo. Lembra que já havíamos conversado a respeito disso?
O menino chora agarrado ao seu corpo, e as lágrimas molham seu pêlo ainda jovem. Com muito custo, o homem leva o menino aos prantos; O caminhão arranca e ele sai atrás, estrada a fora, como um louco, latindo, implorando para que o levem junto, seja para onde for, não interessa, quer ir também. O veículo acelera mais, para seu desespero sente que já não é mais possível alcançá-lo. Senta, fica a observar aquela coisa enorme, que leva para longe sua família, sua felicidade. Fita o veículo até perder-se de vista. Cansado, a língua de fora, pára em meio à faixa. Os carros buzinam, ordenam que saia do caminho.  Reconhece que estes não são seus donos, mas dá meia volta com o rabo entre as pernas e o focinho cravado no chão quente. È cão, mas entende o que está acontecendo, não o porquê, mas sabe o que está havendo: Está sendo deixado, abandonado, sozinho. Vê isso. Sente isso.
Tem dúvidas se essas coisas um dia realmente aconteceram. Se sim, poderia ter sido ontem, ou há dez anos, não lembrava ou não queria. O certo é que estes pensamentos apenas vinham a sua cabeça anciã e ele precisa esquecer.
Deitado sob a marquise, tenta achar a o sono eterno que teima em tardar e o tempo estende-se por longas e impiedosas tardes de sol. Como esta, que despeja sobre ele toda sua fúria quente de verão. Sua língua pende enorme, como nunca antes, implorando um pouco de água que possa prolongar seu sofrimento. Um desconhecido, ou melhor, seu novo amigo, tão sujo quanto ele, aproxima-se, afaga-lhe a cabeça, e compartilha um pedaço de pão duro, ao que ele come com avidez, e devolve ao companheiro um olhar de gratidão sincero; de seus olhos escuros escorre esta, que talvez seja sua última lágrima, que não cai, fica suspensa como ele no dia em que perdeu seu lar e seu dono. Essa lágrima é sua apenas, e o que lhe pertence jamais deixará sair perto de si, mesmo que não deseje ter, que lhe seja incomoda, a lágrima pertence a ele, e não será jogada no vil e sujo chão de uma rua qualquer.






Autor: Luis Felipe Mendes

domingo, 11 de dezembro de 2011

Encontro impróprio (conto)

  
O dia parecia não ter fim. Aloísio estava ansioso naquela Sexta-feira, afinal sair com a secretária do chefe não era todo dia. Alessandra era dez anos mais moça que ele, tinha 24 anos, era uma morena estonteante, com um corpo igualmente perfeito, cabelos longos levemente ondulados, olhos verdes, sim olhos verdes, era uma mulher que certamente não conhecia o que é ser desprezada. Aloisio, entretanto, não era um galã, homem casado, pai de família, barriguinha saliente, os cabelos rareando, ele ainda não acreditava no que estava acontecendo, sair com uma garota daquelas era como acertar na loteria.   
    Alessandra era nova no escritório, estava a pouco mais de três meses no serviço. No princípio foram as gentilezas, os email´s, os almoços juntos, nada mais do que bons amigos. Aloisio procurava não alimentar falsas ilusões, não era crível que uma mulher como Alessandra se interessasse por ele, e além do mais ele era um homem casado e não passava por sua cabeça envolver-se com outra mulher. Pensar num relacionamento entre ele e ela era como tentar dividir o número zero, impossível. Porém, as brincadeiras dos colegas, os comentários, principalmente de Flávio seu amigo mais íntimo no escritório, começaram a alimentar o seu coração. Na verdade Aloisio ficou completamente apaixonado por Alessandra. Não aquela paixão juvenil arrebatadora, explosiva, mas uma paixão mais equilibrada, constante, era como uma dor que não passava, intensa mas suportável. Aquilo que parecia impossível no início, a cada dia que passava ia  tornando-se mais real, os pequenos gestos dela, as suas palavras, o seu sorriso tudo sinalizava que o sentimento dele estava sendo correspondido. Aloisio ia colhendo todos os dias estas pequenas pistas, cada palavra , cada gesto cada sorriso eram de grande valia para ele.
    Finalmente, chegara  o dia , os pequenos gestos de Alessandra já não eram tão pequenos assim, as indiretas, agora, eram diretas. Não havia como negar, Alessandra estava interessada por Aloisio. Sabe Deus o porquê.  Flávio, assim como todos os colegas de Aloisio, cobravam o que ele estava esperando para tomar uma atitude, não havia dúvidas. Todavia Aloisio nunca tinha sido incisivo nos seus relacionamentos amorosos, foram duas ou três vezes apenas que ele tinha declarado o seu amor, apesar de ser uma pessoa extrovertida, quando o assunto era paixão, ele se tornava o mais tímido dos homens. Porém não havia como postergar mais, as cartas haviam sido dadas era hora de mostrar o jogo. Ele a princípio convidou-a para um passeio após o expediente na Sexta-feira um drink, com alguns petiscos, jogar um pouco de conversa fora, e claro pensou ele, se ela desse alguma abertura, quem sabe algo mais.
     Na noite anterior mentiu para sua esposa que teria uma festa no escritório após o expediente e que chegaria bem mais tarde. O terreno estava preparado para sua pulada de cerca. Vestiu-se melhor do que normalmente vestia-se, abusou do seu perfume preferido, tomou um banho demorado antes de ir para o trabalho. Aquela Sexta foi a Sexta feira mais improdutiva da vida dele , as suas tarefas foram adiadas, o seu pensamento estava todo concentrado no seu encontro com Alessandra. Ele consultava o relógio de quinze em quinze minutos, limitou-se a ficar lendo seus email´s, jogar conversa fora com os colegas e a tomar cafezinho quase todo expediente, apesar de suas tarefas estarem bastante atrasadas. Enfim chegara a hora, combinaram se encontrar no estacionamento para evitarem maiores falatórios, que por sinal já eram muitos.
    Encontraram-se no estacionamento conforme haviam combinado. E foram para um shopping próximo, onde já tinham almoçado várias vezes juntos. Tudo estava saindo conforme o planejado por ele. Entraram num Barzinho de ambiente discreto e bonito, um lugar bastante adequado para a ocasião. Ficaram ali entre cervejas, pastéizinhos de queijo, e muita conversa jogada fora. Ela se mostrava bem a vontade com Aloisio, apesar da diferença de idade formavam casal bastante comum. Foram três horas agradáveis para ele, a muito  não se sentia tão leve e satisfeito na companhia de uma mulher. Lembrou-se dos colegas de trabalho, segunda-feira seria um dia de muitas perguntas, certamente, para eles o encontro dos dois seria qualificado como um fracasso, pois todo encontro com uma mulher que não terminasse no motel, era assim por eles qualificados. Aloisio levou a mão no bolso direito de sua calça e sentiu o volume do pacote de camisinhas que Flávio tinha colocado ali, antes dele sair do escritório. Você vai precisar lhe disse. Nada mais longe da verdade, pensou ele. Já eram mais de dez horas, quando tomou a iniciativa de convidar Alessandra para irem embora. Ela morava na periferia da cidade, distante do centro e  não convinha a ele chegar muito tarde em casa. Na saída do bar, Alessandra pegou na sua mão, foi algo espontâneo,  saíram assim pelos corredores do Shopping andando vagarosamente, olhando as vitrines, calados, mas trocando olhares e sorrisos.. Para ele era como se estivesse nas nuvens,  sentia-se como um adolescente quando estava na companhia dela. No caminho para a casa as mesmas conversas amenas, fora o assunto entre os dois. Na frente do prédio no qual morava Alessandra, um beijo, rápido, seco, insípido, quase risível. Aloisio  sentiu-se plenamente realizado.
    Ela ficou na frente do prédio, observando enquanto Aloisio estava indo embora. Ela estava bastante surpresa com o seu encontro. A muito tempo  não saía , se é que poderia qualificar aquela noite como um encontro, com alguém como ele, em nenhum momento insinuara alguma coisa, tinha sido um perfeito cavalheiro. Sim, ele estava apaixonado por ela, só isto poderia explicar o seu comportamento  pueril.
    O final de semana havia transcorrido normalmente com a mesma monotonia de sempre para ele,  chegara enfim a Segunda . Antes de Alessandra o pior dia para ele, mas agora tudo era diferente. Os colegas, fora Flávio, não perguntaram sobre o seu encontro, e como já esperava, Flávio ao ficar sabendo que não foram para o motel, ficou caçoando dele, pelo grande “encontro” de Sexta. Não havia visto ela naquela manhã.
    Eram duas da tarde quando viu dois homens estranhos se dirigirem a sala do seu Silvio, o chefe do departamento, não deu atenção ao fato. Porém ao saírem, seu Silvio solicitou que todos os funcionários se dirigissem a sala de reuniões. A notícia caiu como uma bomba, Alessandra estava desaparecida, seu Silvio não tinha maiores informações, apenas fora avisado pelos policiais que se alguém tivesse qualquer informação sobre o paradeiro dela que informasse a polícia. Estavam ainda todos atônitos , quando Sérgio, o boy da empresa, questionou Aloisio: _ Você não saiu com ela na Sexta. Aloisio sentiu as suas faces corarem.  Todos que estavam ao redor ficaram aguardando a sua resposta. Ele respondeu: _ Sim, saímos para tomar uma cervejinha, e eu a deixei em casa bem cedo não eram nem onze horas da noite. Que dia que ela sumiu seu Sílvio?_ Tu sabe que eu não perguntei, mas deve ser a mais de 24 horas, não é só a partir de 24 horas que a polícia considera que a pessoa esta desaparecida!. _ Bah, Aloisio, será que tu foi o último que viu a Alessandra (Falou Flávio). Aloisio se tornou o centro das atenções, todos queriam saber, onde ele a tinha deixado?, a que horas? se ele viu ela entrar em casa? não tinha ninguém na entrada do prédio? se ele não havia visto nada suspeito?,as perguntas se repetiam, e ele não cansava de falar a mesma coisa, tinha deixado ela na porta de casa, não havia ninguém suspeito perto e quase podia jurar que tinha visto ela entrando no prédio onde morava.  Estava quase em estado de choque, mil pensamentos lhe ocorriam , tentava não pensar no pior, e  afinal ele não tinha nada a ver com o sumiço dela, tudo era uma terrível coincidência.
    Dois dias se passaram sem notícia alguma dela, quando ele recebeu uma ligação. _É seu Aloisio? _ Sim é ele. _Bom como o Senhor deve estar sabendo uma colega sua esta desaparecida, e nós fomos informados que o Senhor foi a última pessoa a ser visto com ela. O senhor poderia comparecer na delegacia? _ Sim eu posso, a que horas? A propósito, desde que dia que ela está sumida? _ Pelo que seu marido informou desde Sexta-feira, ela saiu para o trabalho e não retornou mais. Mas o senhor vindo aqui depor , nós poderemos lhe dar outras informações , que horas fica melhor para o Senhor? _ Olha depois do expediente, posso ir direto, é na 15ª DP aqui do Centro? _ Sim, chegando ali o sr. pede para falar com o inspetor Rocha, eu estarei lhe esperando. Aloisio largou o telefone, ainda assustado, marido era algo que Alessandra escondera dele, ela havia falado para todos no escritório que era solteira, e agora, aparece um marido na vida dela. Porém, o pior era pensar, onde estava Alessandra, o que teria acontecido, depois daquela Sexta-feira, será que seu marido não tinha visto ela chegar com ele e tenha feito uma besteira. Sim, começava a surgir alguns raios de razão nesta história..
    O interrogatório fora mais simples do que ele imaginara, o inspetor Rocha limitara-se a perguntar o que ele e Alessandra haviam feito na Sexta-feira, Aloisio não escondera nada e contara ao inspetor todos os detalhes, inclusive fez questão de ressaltar a sua desconfiança em relação ao marido de Alessandra, será que ele não tinha tido um acesso de ciúmes e cometido algum desatino contra a moça. O inspetor fez questão de falar para ele, que o marido era o primeiro suspeito, entretanto ele se encontrava viajando no final de semana e, disse que desde Sexta-feira não tinha recebido notícias dela, bem como os seus vizinhos não a tinham visto desde então. Ele relatou que  na Segunda pela manhã ao chegar em casa e sem saber onde ela estava havia procurado a polícia. O seu álibi havia sido checado, entretanto a situação ainda estava muito indefinida, pois ninguém sabia onde ela se encontrava. No apartamento as suas roupas estavam intactas e não havia o menor indício de roubo ou arrombamento no  apartamento do casal. Mesmo assim, falou Rocha, a hipótese de um seqüestro relâmpago ou algo parecido não estava descartado, que ele ficasse tranqüilo que a verdade viria à tona.
    Aloisio que já havia comentado com Patrícia a sua esposa sobre o sumiço da colega de trabalho, comentou com ela que havia sido chamado para depor, e claro acrescentou a mentira que os outros colegas também seriam chamados. Patrícia nunca o perdoaria se soubesse que ele havia saído com outra mulher, por mais inocente que tenha sido o passeio. Só em pensar no que aconteceria se Patrícia descobrisse o que tinha ocorrido lhe dava arrepios.
    Doze dias haviam se passados, e Alessandra continuava desaparecida. Era Terça-feira, em torno de dez horas da manhã, quando viu Beatriz uma das colegas sair chorando do escritório do seu Silvio. Ele saiu logo atrás com uma expressão bastante séria , parou no meio do escritório entre as mesas e solicitou a atenção de todos. Disse ele: _ Pessoal, Alessandra foi encontrada..... Ela está morta. Acabei de ser comunicado pela polícia. Aloisio desabou na cadeira. Um silêncio soturno tomou conta do ambiente. Alguém perguntou para  Silvio onde ela havia sido encontrada, como ela havia morrido, Aloisio não distinguira quem havia perguntado. Silvio pouco sabia  a respeito , apenas havia sido informado pela polícia. Os mais práticos folheavam a agenda do escritório para descobrir o telefone do apartamento de Alessandra, buscando informações sobre velório, enterro, enfim sobre o funeral. Aloisio continuava jogado sobre a cadeira sem forças de mover-se.
    Foi só no outro dia através das manchetes de jornais que Aloisio e os colegas souberam dos detalhes da morte de Alessandra. Ela havia sido esquartejada e os pedaços do seu corpo colocado dentro de sacos de lixo e jogados num mato na zona rural da cidade. Dois garotos haviam encontrados os sacos e comunicado a polícia. O jornal mostrava as fotos dos sacos plásticos e das roupas que foram achadas junto a eles, Aloisio logo reconheceu a blusa listrada que ela estava usando quando saiu com ele. Também chamou a sua atenção,  a afirmação do repórter que a polícia já tinha um suspeito, mas só com os testes da perícia e dos legistas, poderiam chegar a alguma conclusão, o rosto dela estava irreconhecível, fora ferida com um objeto contundente e seu corpo encontrava-se em estado avançado de decomposição. Naquela Quarta-feira, ele foi chamado a depor outra vez, contou aos policiais novamente tudo que havia ocorrido na Sexta entre os dois, dessa vez eles haviam sido mais incisivos, claramente procuravam pegá-lo em alguma contradição. O depoimento anterior que tinha durado apenas uma hora, transformou-se em um depoimento de quatro horas, ele teve que responder as mesmas perguntas diversas vezes.
    Chegou exausto em casa , Patrícia o esperava aflita e ansiosa, não entendia porque ele havia sido chamado para depor novamente. Não havia mais como fugir ele teria que contar a ela o que havia ocorrido naquela Sexta-feira, o pior era saber que ela não acreditaria que ele se limitara a tomar algumas cervejas e alguns petiscos  e que nada havia ocorrido entre eles. Aloisio que nunca dera a Patrícia a mínima razão para ela desconfiar dele, estava quebrando toda esta relação de confiança. Enfim ele contou, Patrícia reagiu serenamente para sua surpresa, apesar de deixar claro que não acreditava que ele estava contando toda a verdade para ela, havia algo mais que ele não contara. O sofá da sala passou a ser a sua cama  após aquele dia, mas não por muito tempo.
     Poucos dias haviam se passado, quando o escritório foi invadido por vários policiais, Aloisio foi preso, os repórteres e os fotógrafos aguardavam na recepção do prédio. Flashes e muita confusão ocorreu, quando Aloisio passou por eles até ser colocado no carro da polícia. As perguntas dos repórteres eram tantas que ele não conseguia entendê-las, apenas respondia: _ Eu sou inocente...Eu sou inocente...Eu não fiz nada.
       Dessa vez o interrogatório estava sendo bem diferente dos outros dois. Rocha e mais dois companheiros seus o interrogavam quase simultaneamente: _ Porque você matou ela? _ Com que você a esquartejou? _ Onde estão as facas que você usou no crime? _ Nós sabemos que foi você! Foram encontrados cabelos seus na roupa da vítima, nós temos a fita das câmaras de segurança, e você saiu com ela de mão dadas do shopping, você foi a última pessoa estar com ela antes do assassinato. Porque você matou ela? _ Temos uma testemunha que viu um carro parecido com o seu naquela noite perto do local da desova do corpo, Aloisio é melhor para você confessar!_ Confesse, Vamos cara não há como negar _Conte-nos a verdade. A que horas você chegou em Casa? _ Às onze horas. Disse Aloisio _ É,  mas a  sua esposa não confirma esta informação, ela disse não sabia, mas que era bem depois das onze horas! Falou Rocha. O interrogatório durou várias horas, Aloisio perdera a noção do tempo, estava zonzo de tantas perguntas e a pressão para que confessasse o crime. Enfim lhe permitiram que desse um telefonema. Telefonou para a casa de seus pais , e pediu para que seu pai lhe arranjasse um advogado, não antes de ouvir alguma repreensões e questionamentos de seu pai, afinal porque ele estava envolvido naquela situação. O seu advogado conseguiu um Habeas corpus e ele pode responder ao processo em liberdade.
    O tempo passara rapidamente, a vida de Aloisio havia passado da felicidade para o infortúnio total, sentia-se como uma personagem de uma tragédia grega . Patrícia sua esposa  pedira o divórcio, e estava vivendo com seus pais. Aloísio sentiu-se constrangido de voltar ao trabalho, bem como a empresa não tinha o menor interesse em sua volta. Fizeram um acordo para a saída dele. Os jornais lhe deram a alcunha do Açougueiro do Recanto do Alvorecer, que era o nome do lugar onde o corpo de Alessandra havia sido encontrado. Os seus bens ele havia vendido para dividi-los com Patrícia, e este foi o dinheiro que garantiu o pagamento das suas despesas com o seu advogado de defesa. O julgamento durou dois dias,  e ele foi condenado. Foi um duro golpe, o qual ele não esperava.
    Oito anos haviam se passados, Aloisio estava em liberdade condicional, mudou-se para o interior do estado e estava trabalhando numa pequena empresa de segurança de um tio paterno. Aos poucos ele ia aprumando a sua vida novamente. Sua ex-esposa Patrícia  havia se casado novamente com o seu agora Ex. amigo Flávio. Para ver seus filhos dependia dos seus pais que os pegavam na casa de Patrícia e  levavam até ele. O casamento de Patrícia e Flávio era uma algo muito difícil para ele aceitar.
Seu tio havia fechado um contrato de segurança de um conjunto comercial da principal cidade da região. Aloisio havia sido deslocado para fazer a chefia da segurança do Centro Comercial. Havia alguns meses que ele estava exercendo a sua nova função, quando numa tarde  viu Alessandra, sim a suposta morta, em carne e osso, e também gordura, pois ela estava com muitos quilos a mais. Ela estava atendendo numa pequena joalheria do centro comercial, a princípio Aloisio pensou estar sendo traído por seus olhos, não podia ser ela, resolveu entrar na loja. Alessandra estava ocupada atendendo uma cliente quando  entrou na loja e não o viu entrar, assim que ele entrou e a viu mais de perto não teve mais dúvida era ela em pessoa,  disfarçou e ficou olhando para o balcão de relógios esperando que a cliente saísse para se revelar a ela. Assim que a senhora que estava na loja saiu , Aloisio virou-se para ela. Ele pode notar que ela ficou sobressaltada, porém tentando demonstrar tranqüilidade, falou:_ Que o Senhor deseja?
_ Alessandra..
_ Como Senhor?
_ Alessandra, não é este o teu nome?
_ Acho que o senhor está me confundindo com alguém?
_ Alessandra por favor, eu te conheço, apesar de ter passado tanto tempo, eu não tenho nenhuma dúvida de quem é você.
_ Meu nome não é este senhor, me desculpe. E  nunca havia lhe visto antes, estou começando a trabalhar  hoje aqui. E além do mais  o meu nome é Raica.
Aloisio notou que a mulher  ficou assustada com a sua abordagem , e tentava convencê-lo que não era a Alessandra do escritório.
_ Bom talvez eu esteja enganado mesmo, Raica. Você tem algum documento contigo?
_ Tenho sim seu...
_ Aloisio.
_ Está aqui ó ! Raica Silva Farias, 32 anos e aqui o nome dos meus pais... nasci na capital... Viu eu não lhe falei que o Senhor estava me confundindo. Falou ela um pouco mais aliviada.
_ Bom acho que me enganei, desculpa por tê-la constrangido. Nos veremos mais vezes, pois eu sou o chefe da segurança aqui do centro comercial. Aloisio saiu da loja com a certeza que era Alessandra, e que ela estava escondendo alguma coisa. Tentaria se relacionar com ela e descobrir toda a verdade..
Raica dizia-se divorciada de um policial e se mostrava sempre arredia ao falar do seu passado. Ele acreditava piamente que estava diante de Alessandra. E procurava encontrar-se com ela tentando descobrir algo mais. No princípio foram as gentilezas, os almoços juntos,encontros rápido na loja, o que movia Aloisio era a busca da verdade. Todavia, a cada dia que passava iam se envolvendo mais e mais. Aloisio sentia-se como um garoto ao lado dela, e estava mais uma vez estava completamente apaixonado. E passou a interessar-se mais na sua nova relação amorosa do que descobrir  a verdadeira identidade de Raica, que a cada dia correspondia mais e mais a paixão dele. Toda a paixão que ele sentira por Alessandra agora sentira pela suposta Raica
Aquela seria uma noite especial, iriam ao cinema e depois um jantar. Aloisio não poupou esforços para agradar Raica, levou-a  no melhor restaurante da cidade, pediu um bom vinho, pelo menos ele julgava assim, devido o preço. Foi uma noite especial para ele, havia muitos anos que ele não tinha um encontro assim, talvez o último tenha sido a trágica Sexta-feira com Alessandra. Levou-a em casa, beijaram-se longamente antes de se despedirem, Raica o convidou para entrar, Aloísio porém declinou o convite, apesar do outro dia ser Domingo, ele teria que trabalhar cedo, mas fez questão de dizer que aquele encontro certamente seria o início de muitos encontros.
A Segunda-feira  começou chuvosa, Aloisio chegou em torno das oito horas da manhã no centro comercial, as lojas abriam as nove horas da manhã. Naquela manhã, a joalheria não abriu, Raica não fora trabalhar.







Autor: Maurel Giacumuzzi