segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O tomate (conto)

Era uma vez um homem qualquer, parado numa passarela qualquer, olhando parte da imensidão da cidade.
            Entre edifícios e carros notou próximo o seu pé, um tomate possivelmente estragado, que jazia inerte junto à amurada, preso numa pedra, que o impedia de rolar até o embaixo.
            Valendo-se do instinto humano de curiosidade o sujeito resolveu dar uma ajudinha para o pobre vegetal. Fez assim tocando-o levemente com o bico do seu sapato.
            O fruto vermelho deslocou-se rampa abaixo, numa corrida macia e moderada, desviando-se com habilidade dos obstáculos a sua frente. Quando dava sinais de que desistiria, diante de uma pedra maior, ou pararia por si mesmo, culpa dos buracos que a podridão impunha-lhe, aí sim é que seguia. Parecia ter arroubos de felicidade a cada pedra vencida, saltitando em comemoração.
            O homem assistia a tudo desinteressadamente. Já eu, olho no sujeito, outro no tomate, acompanhava com absoluto espanto àquela cena. Tinha interesse no vegetal. Esquecendo-me do seu mal, ou bem feitor.
            Que fruto cheio de coragem era aquele. Quanta determinação diante desses obstáculos... Meus pensamentos foram interrompidos abruptamente quando perdi de vista o tomate e o homem se afastava. Via no fim da rampa uma pequena escada, onde o fruto poderia ter passado, ou estivesse ali mesmo, junto aos degraus. Agora afastado da minha visão.
            O correto a fazer, segundo o que eu sentia no momento, seria eu ir até lá e procurá-lo, levá-lo para casa, sanar suas feridas – se possível – e comunicá-lo quanto a minha admiração, mas o pudor freou meus anseios. Resolvi deixar a passar por louco que cata alimentos podres próximo a viadutos. Sendo assim, fiquei apenas no desejo. Fui embora, mas não sem antes prometer a mim mesmo que um dia voltaria ali.
            Parti refletindo o momento e como o encontraria daqui a algum tempo: Ainda estragado? E será que estava estragado mesmo da primeira vez ou tudo fora fruto da minha cabeça, só por ele ser um tomate de rua, desprezado?  Bom talvez não tivesse sido jogado fora, mas simplesmente arremessado de um caminha a um sacolejar. Estaria no mesmo lugar? Quem sabe fosse esmagado pelos tamancos enormes de uma senhora igualmente enorme. Poderia estar ainda na escada a minha espera. Se assim fosse eu o pegaria nas mãos e cumpriria meu juramento.
            O que até então não me ocorrera era a indagação e constatação mais obvia: por que esta admiração por este fruto podre?! Existem certas coisas que, conscientemente, escondemos de nós mesmos, talvez esta fosse à situação, porque somente esses dias atrás me ocorreu esta reflexão.
            Como bom pensador que sou peguei-me a analisar o caso novamente hoje. Decidi que é hora de esquecer o tomate. Deixe-o seguir seu curso, quem sabe num passado distante, ou até no presente ele ainda esteja a rolar rampa abaixo, dando viva a vida e sofrendo com as pedras e com um final incerto junto à descida, próximo as escadas.






Autor: Luis Felipe Mendes

Nenhum comentário:

Postar um comentário